<font color=0094E0>Ligações perigosas</font>

Os vínculos entre os separatistas tibetanos e os serviços secretos dos EUA persistem ininterruptamente desde o início dos anos 50. Apenas durante um breve período sofreram ajustes de intensidade, de 1974 a 1979, após o restabelecimento das relações sino-norte-americanas, promovidas por Mao Tsé Tung e Richard Nixon, convergindo com o período de funções de Gerald Ford na Casa Branca.
Com efeito, foi durante o mandato de Ford que a «causa tibetana» menos beneficiou, uma vez que o presidente considerava infrutíferas as intentonas armadas da CIA. O interregno porém não resistiu, e logo que Jimmy Carter foi eleito, o interesse pelo Tibete reanimou-se nos conteúdos talhados pela CIA no final da década de 40.

Travar a revolução

Quando em 1947 se antevia a vitória das forças revolucionárias lideradas por Mao na guerra civil contra o Kuomintang, Washington tocou a rebate face ao «perigo comunista». Em Taiwan, recolheram-se os restos das tropas derrotadas do general nacionalista Chang Kai-Chek. Até aos dias de hoje, a Formosa constitui, com o apoio dos EUA uma afronta à unidade do território chinês. No Tibete, a contra-revolução seguiu pisadas semelhantes.
Em «Fuga da História?», Domenico Losurdo frisa que o diplomata dos EUA em Nova Deli, George Merrel, enviou um telegrama ao então presidente Harry Truman alertando que «o Tibete pode ser considerado um bastião contra a expansão do comunismo ou, pelo menos, uma ilha de conservadorismo num mar de desordens políticas». «Em época de guerra de mísseis pode revelar-se o território mais importante de toda a Ásia», aduzia.
A «ilha de conservadorismo», como a classifica Merrel, era dominada pelos aristocratas leigos e pelos Lamas, e é entre estes que a CIA funda uma célula de operações de inteligência, em 1951, colocando na liderança Gyalo Thondup, um dos irmãos do 14.º Dalai Lama.
O historiador norte-americano Jim Mann, citado por Humberto Alencar no artigo «Dalai-Lama: separatismo e submissão», publicado na página www.vermelho.org.br, sustenta que «durante os anos 50 e 60, a CIA apoiou activamente a causa tibetana com armas, dinheiro, apoio aéreo e todo o tipo de auxílio». Alencar observa que também o estudioso das acções da CIA na região, Michael Parenti, confirma os enlaces do círculo do Dalai Lama com a facção separatista sustentada pela secreta dos EUA, nomeadamente através da Sociedade Americana por uma Ásia Livre, estrutura fantoche na qual Thubtan Norbu, outro irmão do Dalai Lama, é destacado dirigente.
Alencar vai mesmo mais longe e, com base no testemunho de Jonh Knauss, ex-agente da CIA com notável folha de serviços no continente asiático, denuncia que os EUA treinaram a guerrilha tibetana no Colorado e depois a lançaram de para-quedas em território chinês.
Para tudo isto, dinheiro não faltava. Documentos desclassificados no final da década de 90 indicam que, nos anos 60, o «movimento tibetano» no exílio recebia anualmente 1,7 milhões de dólares, e que o próprio Dalai Lama arrecadava uns régios 180 mil dólares.

Laços reforçados

Em 1979, o Dalai Lama vai aos EUA onde está em coordenação uma nova estratégia para a «causa tibetana». Cinco anos mais tarde, já com Reagan e a teoria do «eixo do mal», nasce a National Endowment for Democracy, sociedade que para além da promoção da campanha pró-Tibete independente, financiou e financia outras lutas cujo fim reforça a hegemonia mundial do capitalismo, de que servem de mero exemplo as «revoluções» Laranja e Rosa, na Ucrânia e na Geórgia, com as intenções que se conhecem: agregação daquelas ex-repúblicas soviéticas à NATO e a sua submissão à escalada militarista do imperialismo na Europa e Ásia Central.
Mais recentemente, em 2003, o Dalai Lama deslocou-se por 18 dias aos EUA, aproveitando a estadia para se encontrar com George W. Bush e Colin Powell, na altura secretário de Estado. A reunião ocorreu depois de os norte-americanos aprovarem o Tibetan Act Policy, lei que regulariza a ajuda aos separatistas.
O Dalai Lama fez e faz o seu caminho. Talvez por isso, em 2007 Bush tenha sido o primeiro presidente em exercício a recebê-lo na Casa Branca, e a acompanhá-lo, posteriormente, à cerimónia de atribuição da Medalha de Ouro do Congresso dos Estados Unidos, maior distinção civil do país.
Tal como os líderes kosovares nos Balcãs se prontificam a contribuir para o projecto neoconservador da «Grande Albânia», o 14.º Dalai Lama batalha pelo «Grande Tibete», território que abrange parcelas da China, do Nepal e da Índia, como avança Melvin Goldstein em «O dilema do Dalai Lama», publicado fez em Janeiro uma década pela insuspeita Foreing Affairs.


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